12 de setembro de 2017

Ensinar a pensar bem para viver melhor

No começo de um novo ano escolar, não é supérfluo reflectir sobre a finalidade última da acção educativa e o papel primordial que cabe a educadores, professores, gestores e demais técnicos ao serviço da educação.

Não questiono a necessidade de bem cuidar das tarefas específicas nos vários e distintos domínios particulares do conhecimento, da organização e da gestão dos recursos, mas creio que vale a pena sublinhar quão importante é a tomada de consciência da finalidade última do projecto educativo de cada comunidade educativa e, consequentemente, a necessidade de o definir, pôr em prática e avaliar.

Numa leitura recente, deparei com um texto de Frédéric Lenoir (Le bonheur – un voyage philosophique, 2013) em que este autor dá destaque ao conceito de educação segundo Montaigne, considerando-o particularmente relevante para o tempo actual em que sobressai a preocupação excessiva com o acumular de informação e a respectiva métrica, em desfavor da educação para a vida boa.

Transcrevo as suas palavras:

O verdadeiro projecto educativo deveria consistir em ensinar a criança a desenvolver o seu juízo próprio. Porque a coisa mais essencial para levar uma vida boa, é saber discernir e julgar bem. A formação do juízo é indissociável do conhecimento de si: um educador deve ensinar a criança a fazer um juízo próprio sobre as coisas a partir de si própria, da sua sensibilidade e da sua própria experiência.

Isso não significa que se deva renunciar a transmitir-lhe valores essenciais à vida em comum, como a boa-fé, a honestidade, a fidelidade, o respeito do outro, a tolerância. Todavia, convém ajudar a criança a medir a importância destas virtudes a partir da sua percepção, da sua maneira de ver. 

Ensinando-a a conhecer-se e a observar o mundo com um espírito ao mesmo tempo aberto e crítico, ajudamo-la a formar um juízo pessoal que lhe permitirá fazer as escolhas de vida que convêm à sua natureza. 
 
Em suma: a educação deve ensinar a pensar bem para viver melhor.

20 de agosto de 2017

Filosofia e Género – Outras narrativas sobre a tradição ocidental

Este é o título de um livro que não é só para quem se interessa por Filosofia ou por Género ou por ambos. É um livro que ajuda a entender o modo como vivemos e a persistência das causas que, apesar das leis e do discurso, ainda impedem as pessoas e as sociedades de “ver” os homens e as mulheres com a mesma dignidade social. É um livro sobre a construção da supremacia masculina que identifica “ser humano” com “homem”, contra a razão e apesar dela. É um livro sobre o poder deste preconceito, ainda hoje crença quase universal, estruturante das sociedades e da sua organização, a atravessar geografias, classes sociais, religiões e identidades de homens e mulheres. E é um livro sobre a resistência da racionalidade, através de “outras narrativas” sempre presentes na história do pensamento ocidental, mas que Fernanda Henriques desoculta, sistematiza e liberta, em nome da honestidade intelectual, da justiça e do bem-estar presente e futuro de toda a humanidade.

Com efeito, ao demonstrar que o preconceito que socialmente continua a hierarquizar homens e mulheres, menorizando estas, se fundou no abafamento e na desconsideração de muitas vozes, algumas quase desconhecidas mas todas sempre racionais, à autora parece ser possível e legítimo oferecer a mulheres e homens uma visão do passado que se constitua como um novo ‘espaço de experiência’ teórica capaz de gerar novos ‘horizontes de expectativa’, ... que não seja puramente utópica e sim bem enraizada em todos os acontecimentos passados que um certo cânone tem bloqueado e impedido.

Ou seja, depois deste livro não é mais possível ao preconceito escudar-se na tradição, porque ficou demonstrado que ela não foi unívoca mas apenas dominante. Houve, desde cedo, detratores e detratoras e muitas vítimas que deixaram rasto, a constituir legado, poder e base para a educação e a formação das pessoas, dotando-as de uma consciência crítica, cidadã e democrática, capaz de desafiar com êxito a reprodução dos mitos nefastos que originaram o sofrimento e a perda de milhões de pessoas ao longo dos tempos no mundo inteiro, e de reconstruir as sociedades à luz do reconhecimento de que mulheres e homens são duas variantes do ser humano, livres e iguais em dignidade, direitos, deveres, oportunidades e resultados no desenvolvimento e na qualidade de vida.
 
Filosofia e Género – Outras narrativas sobre a tradição ocidental vem tornar claro que à base filosófica assimétrica que recusou às mulheres um estatuto social igual ao dos homens no espaço público e aos homens um estatuto social igual ao das mulheres no espaço privado, gerando conflitos, usurpações, desequilíbrios vários e violência sistémica entre pessoas e povos, é possível contrapor, com êxito, uma base filosófica que promova a igualdade substantiva entre mulheres e homens e que, por isso, crie condições efetivas para a justiça e para a paz.

Cf.. Fernanda Henriques (2016) - Filosofia e Género – Outras narrativas sobre a tradição ocidental. Edições Colibri, Lisboa.

Maria do Céu da Cunha Rêgo

8 de agosto de 2017

Educação da População Adulta: as mulheres e os homens

No Seminário "Educação e Formação para a População Adulta", realizado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) na Universidade de Coimbra em 29 de Maio último, apresentámos uma breve comunicação que tinha como objectivo demarcar os perfis de aprendizagem de homens e mulheres adultos em Portugal.

Após uma breve incursão pelo confronto entre as perspectivas funcionalista e humanista deste tipo de educação, centrámo-nos nesta segunda perspectiva dada a riqueza da sua contribuição para o reforço do ciclo virtuoso educação cidadã * democracia. E, a esta luz, tentámos delinear os perfis de aprendizagem de umas e de outros.

Sendo por demais conhecido o facto de as raparigas deterem entre nós melhor prestação escolar do que os rapazes - têm taxas de abandono muito inferiores, estudam em geral até mais tarde e, igualmente de modo geral, obtêm classificações mais elevadas - pudemos constatar que este padrão de género sofre, em Portugal, alterações significativas quando em idade adulta.
 
Com efeito, as estatísticas do EUROSTAT revelam-nos que de entre a população detentora do ensino básico, os homens dos 25 aos 64 anos prosseguem mais estudos do que as mulheres do mesmo escalão etário. Mas quando se consideram apenas as actividades de aprendizagem não formais prosseguidas pela população dos 25 aos 64 anos, constata-se que em 2016 cerca de 9,7% das mulheres contra 7,5% dos homens o faziam.

Não estaremos, então, em presença dos efeitos da múltipla jornada de trabalho das mulheres que as leva a defrontar-se com maiores dificuldades face a horários e tempos de aprendizagem mais estruturados, próprios da educação formal, procurando assim as aprendizagens não formais para prosseguir estudos?

O conhecido círculo viciosos da constituição de competências - qualificações mais elevadas procuram em maior percentagem qualificar-se ainda mais...- conhece o seu reverso em situações de desemprego tecnológico, também dito de inadequação: quanto mais tempo os trabalhadores e as trabalhadoras permanecerem desempregados/as e ausentes dos mercados de trabalho em virtude da inovação tecnológica, mais se desgastam as competências que previamente adquiriram, a não ser que se providencie formação específica e adequada a estas situações. Não é necessário sublinhar a importância de que este aspecto se reveste nos nossos dias; importa talvez relembrar, no entanto, que a percentagem de mulheres portuguesas desempregadas de longa duração, independentemente dos motivos, é cerca de 20% superior à dos homens em igualdade de circunstâncias (INE, Inquérito ao Emprego, 2016). Ora os Inquéritos à Educação e Formação de Adultos (INE, 2007 e 2011) mostram à evidência a superioridade da participação das mulheres naquelas circunstâncias, face aos homens, em actividades de aprendizagem ao longo da vida.

Deparamo-nos, assim, com uma notória dissemelhança dos comportamentos por sexo: se bem que em situação de emprego as mulheres adultas acedam menos a EFPA do que os homens, quando desempregadas inverte-se a tendência; por outro lado, e ao contrário dos homens, nesta situação perante o emprego as mulheres participam predominantemente em actividades de aprendizagem não formais, confirmando a tendência que constatámos inicialmente para o total da população residente.

Assim, parecem ser de importância decisiva na correcção desta importante diferença de género, entre outras medidas:
- uma boa articulação entre as tutelas do trabalho, da educação-formação e do ensino superior, a fim de que, face a uma coordenação de objectivos e metodologias, se promova uma visão integrada das clivagens que constatámos e, especialmente, das medidas destinadas à sua superação;
- o desenvolvimento e melhoria das medidas que promovem a articulação trabalho-família, bem como das que visam apoiar a dupla jornada de trabalho das mulheres, designadamente no que respeita aos recursos de suporte à infância e de prestação de cuidados;
- o envolvimento dos parceiros sociais e da oferta de EFPA no desenvolvimento de um processo de sensibilização com vista à compatibilização dos horários de trabalho e de educação e formação.

10 de julho de 2017

Ensino Superior 2015-2017: que mudanças?

Dois anos passados sobre o Projecto Pensar a Educação. Portugal 2015, de que se deu conhecimento público através de diversas iniciativas, nomeadamente a publicação dos livros Pensar Educação (*) (2015) e Pensar a Educação – temas sectoriais (**) (2016), é tempo de fazer um balanço sendo que, no que nos diz respeito, o fazemos sobre o Ensino Superior e Investigação Científica.
 
É um balanço breve, em jeito de inventário, que pretende actualizar a análise que realizámos em 2015, sobre o tema. E fazemos este balanço em quatro entradas: O que melhorou no último ano? O que piorou no último ano? Quais os problemas mais relevantes?; Que propostas para o futuro?

Assim começa o texto de Luisa Cerdeira e Belmiro Cabrito.
 
Ler mais aqui.

22 de junho de 2017

A escola tem de ser um elevador social

Nestes dias em que o ano escolar se aproxima do seu termo, vale a pena parar para pensar e reflectir sobre este artigo de Márcio Berenguer, dado a conhecer no último nº da Revista XXI da FFMS.
 
O autor leva-nos a conhecer uma escola da Madeira - a Básica 123 do Curral das Freiras cujo contexto social é descrito assim: Uma escola na zona mais pobre e isolada da Madeira, onde metade das famílias não tem internet e 92% dos alunos beneficiam de Acção Social Escolar, tem tido – consistentemente – notas superiores à média nacional. Em 2015, a Escola Básica 123 do Curral das Freiras superou-se. Teve a terceira melhor média nacional no exame de Português do 9.º ano, com 4,4 valores (o máximo é cinco) e foi a melhor escola pública do país na disciplina, num ano em que apenas três escolas públicas ficaram entre os 50 primeiros lugares.
 
O director, Joaquim Sousa, e a equipe docente acreditam que a escola tem um papel insubstituível enquanto meio de combater a desigualdade e a exclusão social. Nas suas palavras: a escola tem de ser um elevador social, como espaço promotor da igualdade e de oportunidades.
 
Para tanto é essencial colocar de facto os alunos em primeiro lugar, ir ao encontro dos seus sonhos mas também da sua realidade e saber adaptar programas e métodos, sempre com critérios de exigência máxima quanto à aquisição de conhecimento e à preparação para a vida futura.
 
Quando chegou à escola, depois do desastre do primeiro ano, Joaquim Sousa disse que ia torná-la na melhor do país. “Olhando para trás, se calhar foi pedir muito. Mas a verdade é que provámos que é possível”, diz, defendendo que o modelo implementado deve ser replicado noutros estabelecimentos de ensino. Não a papel químico, porque é preciso olhar para as características dos alunos e para o contexto social onde a escola está inserida.
 
Não é tarefa fácil, mas tem de ser possível e sê-lo-á se convictamente assumida e persistentemente cumprida.
 
É preciso colocar os alunos em primeiro lugar. Colocar mesmo. Isto não pode ser apenas uma frase”, sublinha (Joaquim Sousa), repetindo o que diz aos professores que, ano após ano, têm chegado ao Curral das Freiras. “Isto só funciona se tratarmos os miúdos da mesma forma que queremos que os outros tratem os nossos filhos”
Artigo na íntegra.

20 de maio de 2017

Educar para a conscientização

Por mero acaso deparei com este texto de Jacques Salomé. Publicado em 1994, mantém, a meu ver, plena actualidade, pelo que vale a pena recordá-lo, neste quase final do ano lectivo, que é também o tempo propício para o começo da preparação de um novo ano escolar.
 
Por maior relevância que tenha a busca das melhores soluções de funcionamento das escolas e dos ajustamentos, que será desejável fazer, na afectação dos recursos materiais e humanos, não deve ser subestimada a pergunta de fundo: Educar para quê?  

Vivemos tempos de anunciadas mudanças a vários níveis e bom seria que as diferentes comunidades educativas se debruçassem seriamente sobre os desafios desse tempo futuro e implicações que daí resultam para os projectos educativos.

O texto de Jacques Salomé, que a seguir transcrevo,  traz à reflexão opções essenciais.

Um dia haverá nas nossas escolas uma educação para a conscientização.
 
Uma educação em que cada criança será convidada a compreender e a ampliar o despertar dos seus possíveis e, além disso, a reconhecer a parcela de divino que nela existe.
 
Uma educação que lhe permitirá e autorizará a sentir aquilo que sente, a experimentar o que experimenta num momento dado, a poder identificar o seu real sentimento do instante.
 
Ser-lhe-á, assim, oferecida a possibilidade de uma verdadeira aprendizagem:

• Para se exercitar a percepcionar as diferentes sensações: de gratificação e de frustração, de compreensão e de rejeição.
• Para afinar as sus capacidades de discernimento.
• Para aprender a distinguir o escutar do entender, o olhar do ver, o exprimir-se do comunicar.
 
Um dia haverá nas escolas uma educação para defender o respeito de si e a importância de não se deixar definir… pelos outros.

E, assim, fazer compreender que uma relação tem sempre duas extremidades.
 
Uma educação que nos fará entender que é possível a cada um tornar-se responsável da extremidade que é a sua e de ser atento, vigilante e respeitoso da outra extremidade (a daquele ou daquela que está diante de si), na descoberta da diferença e da alteridade.
 
Um dia haverá nas escolas um ensino para aprender a proteger e a alimentar a nossa relação com o Universo.
 
Para nos fazer descobrir que somos seres planetários, que já não é possível gerir o planeta TERRA a partir de interesses locais, nacionais ou circunstanciais.
 
Um dia haverá uma ecologia relacional que florescerá entre os seres e nos dará meios concretos de aceder, para além da esperança, à necessidade de paz que habita cada um.
 
Haverá uma pulsão mais vital do que uma necessidade, mais ambiciosa que um desejo, mais poderosa do que um mero despertar. 

Haverá um movimento mais profundo que um impulso, mais largo do que um voo, mais generoso que uma promessa.
 
Haverá um ideal mais vivo do que um sonho.
 
Haverá um projecto de carta de vida para uma comunicação viva e relações saudáveis entre os homens e as mulheres.
 
(Jacques Salomé – Il y aura un jour... in L’attention. Prendre soin de l’être. Outono 1994)

11 de março de 2017

Pensar a Educação. Portugal 2017

Com este título acaba de ser divulgado um texto do GES – Economia e Sociedade que pretende fazer um ponto de situação acerca do sistema de educação e políticas públicas em discussão.
 
Dele transcrevemos os parágrafos introdutórios.

Há cerca de dois anos, realizava-se, em Lisboa, a Conferência Pensar a Educação. Portugal 2015 que culminava um projecto de reflexão, que mobilizou e envolveu várias dezenas de pessoas na elaboração de textos de análise e de proposta sobre distintas problemáticas do nosso sistema educativo e da política de educação em Portugal. Toda a documentação produzida foi reunida em dois volumes: Pensar a Educação e Pensar a Educação – temas sectoriais (Educa editores, 2015). 
Também se encontra disponível em Educacao-sec21.blogspot.com .

Ao contrário do que sucedia na altura em que iniciamos o referido projecto (2014), quando o debate sobre a educação parecia ausente das agendas políticas, presentemente o tema vem ganhando maior visibilidade, não só devido a um conjunto de medidas governamentais avulsas entretanto adoptadas e que suscitaram alguma controvérsia (municipalização, contractos de associação e relação público e privado, regime de avaliação dos alunos, etc) como pela divulgação de trabalhos de investigação no âmbito do projecto AQUEDUTO da responsabilidade do Conselho Nacional de Educação (http://www.aqeduto.pt/), entre outros. 

A destacar a recente publicação de um relatório sobre o perfil educativo do aluno à saída da escolaridade obrigatória que o Governo colocou em apreciação pública. Este relatório tem por fundamento um enunciado de princípios, valores, objectivos e metas a atingir. Pretende traçar um quadro de referência para a definição não só de novos currículos como de metodologias e processos de aprendizagem. A este propósito, cabe perguntar: qual a pertinência da análise e da proposta feita? Estão devidamente acauteladas as condições da sua viabilidade ou estamos perante uma mera declaração de intenções?

Antes, porém, de o fazer, considera-se oportuno que, na continuidade com o projecto anterior (Pensar a Educação. Portugal 2015), também nos interroguemos sobre a situação presente do sistema educativo, nas suas múltiplas vertentes, as suas estruturas, os seus recursos materiais e humanos, o seu modelo de gestão e a cultura institucional prevalecente no sector e avaliar o que terá melhorado, o que piorou e quais os principais problemas que permanecem sem solução à vista? Tudo isto sem ignorar que novos desafios se perfilam no horizonte, dadas as mudanças aceleradas que se avizinham no domínio demográfico, tecnológico, económico, societal e geo-político.

 
Continuar a ler o texto na íntegra  neste blogue.